Estilo Louva-a-Deus de Kung Fu

Estilo louva-a-deus de Kung Fu

O estilo Louva-a-Deus de kung fu (螳螂拳 ou 螳螂門) é um dos mais populares do mundo. Como a maioria dos estilos antigos de kung fu, sua origem não é bem documentada, e fatos se misturam com lendas e tradições orais. Antes de estudarmos o estilo, aconselho antes olhar para o inseto que o inspira e desmistificar uma das lendas mais persistentes do kung fu. 

“As sete estrelas que denominam o estilo é uma referência às sete partes do corpo que devem ser utilizadas em harmonia durante a luta: cabeça, ombros, braços, mãos, quadris, joelhos e pés.” (trecho extraído do livro Tai Chi Chuan – Estilo Yang Tradicional de autoria do Grão-Mestre Chan Kowk Wai)

Kung fu e animais

É muito comum a crença de que o kung fu é uma luta que imita animais, talvez graças a filmes que gostam de mostrar movimentos exóticos e bonitos. Já falei antes a respeito do estilo do bêbado (que não é um estilo) e mostrei argumentos de que as formas bêbadas não imitam um bêbado. O mesmo vale para estilos com nomes de animais, chamados de “estilos de imitação” (象形拳). Esses estilos na verdade se inspiram em métodos de combate que animais usam – os estilos de serpente, por exemplo, se baseiam na flexibilidade, no bote e no “veneno” da cobra, no caso acertar pontos fracos do corpo com os dedos; o estilo Garça Branca de Fujian prioriza não usar a força física (sendo a garça um animal frágil), braços leves e rápidos como asas, ataques diretos e fortes como o longo bico do pássaro. Ou então usam um animal para descrever seus movimentos, por exemplo, na forma de serpente do estilo Xing Yi se retorce o corpo e anda-se na diagonal, lembrando pouco uma serpente; o movimento “garça branca abre asas”, tanto nos estilos Shaolin e Taiji, lembram um pássaro esticando suas asas.

Cenas do seriado Marco Polo, onde um personagem (Jia Sidao) é especialista em Louva-a-deus e no trecho 2’35” os dois passam a lutar no mesmo estilo.

Um pouco a respeito do inseto

Louva-a-deus são todos os insetos da ordem Mantodea. Seu nome é uma referência óbvia à sua aparência quando mantém seus braços dobrados, como se estivesse rezando. Em outras línguas às vezes é chamado pelo seu nome grego, que dá a origem ao seu nome científico, Mantis, que significa “profeta”. Em chinês se chama TangLang em mandarim, Tòhng Lòhng em cantonês(螳螂). Quase todas as espécies do inseto são carnívoras, se alimentando principalmente de outros insetos, mas às vezes também se alimentam de escorpiões, lagartos, pássaros, cobras e até roedores. Geralmente caçam através de emboscada, se camuflando e esperando uma presa chegar perto. Sua estratégia é usar seus potentes braços em forma de gancho para prender suas presas e comê-las vivas. O ataque do seu braço é tão forte que é capaz de perfurar a pele humana, ou matar um pássaro pequeno num golpe só. A espécie de louva-a-deus que o estilo “imita” é a Tenodera Sinensis, ou o Louva-a-Deus Chinês. É uma espécie geralmente mais longa que as demais, capaz de derrotar adversários maiores, o que com certeza chamou a atenção dos artistas marciais da China antiga.

Os “soldados Louva-a-Deus” de Taigong

Os chineses não só fizeram a primeira descrição documentada dos louva-a-deus, como também os associaram a técnicas de luta e guerra à muitos séculos atrás. Taigong (太公) (séc. 11AC) também conhecido como Lu Shang (呂尚) ou Jiang Ziya (姜子牙), foi um dos primeiros a fazer isso. Ele é um dos autores de estratégia militar mais famosos da China. Em seu livro Os Seis Ensinamentos Secretos (六韜), o rei de Wen encontra Taigong pescando, os dois iniciam uma conversa sobre estratégia e governo, e esta conversa se torna a base do texto no livro. No capítulo 4/6 – A estratégia do Tigre, ele discute equipamentos militares e armas e como aplicar princípios de táticas. Suas soluções enfatizam velocidade, manobrabilidade, desorientação e emboscada. Nela Taigong descreve “Soldados Louva-a-Deus”: seriam homens armados com uma Ge (戈) – uma espécie de alabarda no formato de uma foice, muito usada na China antiga – montados numa carruagem de guerra. Geralmente essas carruagens carregavam 3 homens: o cocheiro ao meio, um soldado armado com uma Ge à direita do cocheiro e um arqueiro à sua esquerda. Mas Taigong deixa implícito que os três deveriam ser soldados louva-a-deus, ou seja armados com a Ge. Essa arma possuía técnicas que lembravam muito o jeito do louva-a-deus de lutar, com golpes de cima para baixo ou pelas laterais, que enganchavam o oponente e o traziam para perto, onde já sem poder reagir era finalizado. Mais tarde, essa arma passou por transformações, tornando-se o Ji (戟) – uma alabarda em forma de meia-lua com uma ponta. Atualmente, o mestre Chan é o único professor que tenho notícia que ainda ensina o Ge na sua forma mais antiga, em cantonês se pronuncia Fo.

 
Não é clara a ligação entre os soldados louva-a-deus de Taigong com o estilo de kung fu. Sabe-se que na dinastia Ming, quando provavelmente o estilo foi criado, esses soldados eram conhecidos, embora não mais utilizados. Existem muitos casos de estilos desenvolvidos a partir de técnicas de armas, o estilo Xing Yi, por exemplo, foi criado quando se adaptou a luta de lanças para a luta de punhos, e o bastão de Shaolin antecede a criação de seu estilo de mãos vazias. Talvez as técnicas de louva-a-deus tenham alguma conexão com as técnicas do Ge, posteriormente adaptadas para os punhos.

A criação do estilo e Wang Lang

A história da criação do estilo foi passada oralmente a cada geração de praticante, por isso existem várias versões dela, e pode não ser precisa. Em todas elas, Wang Lang (王朗) é o criador do estilo. Note-se que existe outras 2 pessoas com esse mesmo nome, um deles tanto personagem histórico quanto personagem da famosa novela Romance dos 3 Reinos, político do reino de Cao Wei (morto em 228DC); o outro um herói da dinastia Xin (morto em 24DC). Pode ser que os dois estejam conectados ao criador do estilo de alguma maneira, visto que os chineses tinham o hábito de dar o crédito de grandes realizações à personagens históricos. 

 
Wang Lang seria nativo do vilarejo de Long Bao, na província de Shandong (山東), algumas lendas o colocam no fim da dinastia Ming (por volta de 1600) e outras em torno da dinastia Song do Norte (por volta de 1250). Ele pertencia a uma família abastada, teve educação formal e aprendeu um estilo de kung fu num templo taoísta local. À conselho do seu mestre, viajou pela China refinando suas habilidades e duelando com outros lutadores, até chegar no templo Shaolin. Lá aprendeu alguns estilos do templo e desafiou os monges, derrotando todos, exceto o melhor lutador do mosteiro, um monge chamado Feng. Chateado, foi passear na floresta e se sentou para descansar debaixo de um salgueiro. Então, ele ouve barulhos estranhos e encontra um louva-a-deus lutando com uma cigarra. Apesar de ser menor, o louva-a-deus derrota a cigarra, o que deixa Wang Lang impressionado. Ele captura o louva-a-deus e começa a estudar suas táticas, atiçando-o com uma vareta.

 
Depois de um tempo estudando os métodos de caça e luta do louva-a-deus, ele formula um novo estilo baseado em 12 princípios, conhecidos como “12 palavras secretas” (十二字訣): 鉤Gou (Enganchar); 摟Lou (Abraçar); 採Cai (Tirar); 掛Gua (Suspender); 刁Diao (Ardiloso); 進 Jin (Avançar); 崩Beng (Romper); 打 Da (Atacar); 粘Zhan (Pegajoso); 黏Nian (Aderir); 貼Tie (Unir); 靠 Kao (Reclinar).* Além disso, desenvolveu o trabalho de pernas e movimentação do estilo inspirado no macaco. Com o novo estilo sintetizado, ele foi capaz de derrotar Feng. Mais tarde, o abade do templo, conhecido como Fu Ju (福居), convida 18 especialistas de kung fu para lecionar no templo e refinar as artes marciais já praticadas ali, e Wang Lang é um dos convidados. Esse encontro foi contado num livro chamado de “Transmissão Autêntica de Shaolin” (少林真傳), escrito por Fan Xudong, um importante mestre do estilo, na forma de um poema chamado “Canção dos Métodos de Mãos das 18 famílias” (十八家手法歌), onde diversos mestres de diversos estilos são citados, incluindo Wang Lang no último verso, que diz: “O Louva-a-deus de Wang Lang sempre resiste” (王朗的螳螂總敵) – uma tradução menos literal seria “O Louva-a-deus de Wang Lang nunca perde”. Desta maneira, o estilo Louva-a-deus absorve as técnicas de outros estilos e começa a ser ensinado abertamente, sendo chamado as vezes de “Estilo Louva-a-Deus Luohan 18 Famílias” (十八家羅漢螳螂派). O primeiro kati de Louva-a-Deus que aprendemos, e também considerado um dos mais antigos e mais importantes, se chama “18 anciões” (Shiba Sou -十八叟) é uma referência direta aos 18 mestres que lecionaram no templo. Vale notar que as vezes essa forma é chamada de 18 Mãos (Shiba Shou – 十八手), uma pronúncia semelhante.

 
Mais tarde, Wang Lang voltou para Shandong, onde passou a viver num templo Taoísta nas montanhas Laoshan (嶗山). Nesse período ele passa a se dedicar mais ao ensino do seu estilo, tendo dois principais alunos: Shen Xiao Dao Ren (升霄道人) e Yu Zhou Dao Ren (宇宙道人), responsáveis pelas duas escolas mais antigas de Louva-a-Deus, a 7 Estrelas e Flor de Ameixa. Algumas versões também dizem que Wang Lang participou de sociedades secretas que tentavam derrubar os Qing, recém chegados ao poder, o que colocaria o nascimento de Wang Lang no fim da dinastia Ming. Ele teria se dedicado ao taoísmo e ao kung fu até os últimos dias de vida, em Shandong.

 
A história de Wang Lang pode ser considerada lendária e questionável. Todas as escolas de Louva-a-Deus o colocam como criador do estilo e contam uma lenda parecida com essa, mas como já disse anteriormente, na época onde o estilo supostamente foi criado era muito comum diversos estilos de kung fu, tanto do norte ou do sul, tentarem estabelecer alguma conexão com o templo Shaolin, seja dizendo que o estilo foi desenvolvido dentro do templo ou por alguém do templo, ou que era um ensinamento secreto do templo, ou que seu criador chegou a derrotar os monges do templo. Na época, Shaolin era muito famoso e respeitado dentro das artes marciais e era considerado o melhor centro de ensino delas, uma espécie de Meca do kung fu. As vezes também era comum chamar qualquer local de ensino de kung fu como “Templo Shaolin”, não muito diferente do que fazem as escolas de hoje, vide quantas academias possuem “Shaolin” no nome, mesmo com estilos que nunca estiveram no templo. Além disso, tanto o estilo quanto seu criador são originários da província de Shandong, enquanto o verdadeiro e único templo Shaolin fica em Henan, e todos as linhagens do estilo partem de Shandong. De toda forma, como é usual no kung fu, é difícil distinguir história com lenda.

A linhagem 7 Estrelas

Há diversas histórias de como o estilo Louva-a-Deus desenvolveu tantas linhagens. Numa delas fala que os melhores alunos de Wang Lang queriam continuar a ensinar seu estilo mas de maneira própria, e buscavam um jeito de se diferenciarem-se. Wang Lang então pediu que cada um capturasse um louva-a-deus. Um deles possuía 7 pequenas manchas, e a linhagem de seu dono ficou conhecida como 7 Estrelas (七星); outro possuía uma mancha que lembrava o símbolo do Yin-yang, e sua linhagem ficou conhecida como Taiji (太極); outro tinha uma mancha que lembrava uma flor de 5 pétalas, e sua linhagem foi chamada de Flor de Ameixa (梅花); o último não tinha nenhuma mancha, e ficou conhecida como Tábua Branca (光板).
Outra – e mais provável – história segue os alunos de Wang Lang: Shen Xiao Dao Ren (升霄道人) e Yu Zhou Dao Ren (宇宙道人). SXDR as vezes é tido como aluno direto de Wang Lang as vezes não, provavelmente é uma figura lendária. Ele teria sido um taoísta praticante de artes marciais. Um dia, visitando o suposto templo Shaolin observou os monges praticando um estilo muito peculiar e estranho. Ele então pediu uma luta amistosa para um deles e foi facilmente derrotado, tentou novamente com outro monge e obteve o mesmo resultado. Ele perguntou que estilo era esse, e responderam “Punho de Louva-a-Deus”. Então SXDR pediu ao abade para aprender esse estilo e foi aceito.

 
Mais tarde, SXDR ensinou o estilo para Li Sanjian (李三剪), também conhecido como Li Zhizhan, nascido em 1821 em Pingdu, Shandong. Ele era um Biaoshi (鏢師), um Oficial de Segurança Logística; na época ainda não existiam bancos, então grandes quantias de dinheiro, como impostos, deveriam ser fisicamente transportada pelo grande país, o que os tornavam bons alvos para ladrões. Muitos artistas marciais, incluindo a família de Gu Ruzhang, tinham essa profissão. Na época, o governo estava em sérios problemas e quase não tinha autoridade sobre as províncias de Hebei e Shandong, o que tornava seu trabalho muito mais difícil e perigoso, mas o fato dele ter sobrevivido por tanto tempo, enquanto escoltava viagens tão longas quanto ir de Beijing a Fujian, atestam a sua grande capacidade de combate. No fim da sua carreira ensinou o estilo a poucas pessoas, provavelmente 4. Faleceu em 1891.

 
Entre os alunos de Li Sanjian estava Wang Rongsheng (王榮生), também conhecido como Wang Yongchun. Nascido em 1854, ele começou a treinar artes marciais cedo com mestres locais. Aos 23 já dava aulas, em 1888 conhece Li Sanjian e começa a aprender o estilo louva-a-deus. Ele também aprende com outros colegas artistas marciais, em especial, o estilo Yanqing (燕青) – também chamado de Mizong Quan (迷踪拳- Estilo do Rastro Enganador), um estilo da família Punho Longo, semelhante ao Shaolin. A casa de Wang, e também seu lugar de ensino, ficou conhecida como “Sala da Virtude Excepcional” (魁德堂). A palavra Kui (魁) também dá o nome à estrela mais brilhante da Constelação do Norte (北鬥星), também chamada de 7 Estrelas (七星), no ocidente conhecida como Ursa Maior ou A Carruagem. Esta é talvez a constelação mais importante da cultura chinesa, muito usada na religião e artes marciais. Talvez, ao se inspirar nas 7 Estrelas, Wang decide chamar seu estilo de “Louva-a-deus 7 Estrelas” (七星螳螂拳). Então ele reformula o que aprendeu com base na teoria das 7 Estrelas usada no kung fu – que no caso se referem a harmonia e coesão entre 7 partes do corpo: cabeça, ombros, cotovelos, mãos, quadril, joelho e pés. Ele também combina os punhos de Louva-a-Deus, o Passo 7 Estrelas (七星步) oriundo de outros estilos, desenvolve novos katis e formula outros, mantendo alguns katis originais do estilo Yanqing, praticados até hoje. Esses katis são muito distintos dos demais katis puramente 7 Estrelas, como Passo Esmagador e 18 Anciões, e se assemelham mais aos dos estilos Punho Longo. Essa linhagem de Louva-a-Deus também passou a ser conhecida como Louva-a-Deus Rígido (硬螳螂) por causa de sua força e aparência externa mais dura, embora internamente seja mais suave.

 
Wang Rongsheng teve 3 principais alunos: Wang Yunfu, Chi Shuluo, Wang Jie e Fan Xudong. Fan Xudong (范旭東), entre eles, se torna o mais famoso. Ele é nativo de Yantai em Shandong, nascido em 1875, vindo de uma família rica, mercadora de seda. Fan Xudong tinha mais de 2 metros de altura e mais de 120kg, ficou apelidado como “O Gigante de Yantai” pelo seu porte físico, e “Rei do Louva-a-Deus” pela sua habilidade de combate e palma de ferro. Numa viagem à Sibéria desafiou lutadores locais e derrotou todos. Em outra história, estava atravessando um campo quando foi atacado por 2 touros, reagiu matando ambos. Também foi o primeiro a escrever a respeito do estilo, num livro chamado “Transmissão Autêntica de Shaolin” onde apresenta os conceitos do estilo, herbologia e o qigong dos 18 Luohans.

 
Entre os principais alunos de Fan Xudong, focaremos em Luo Guangyu (羅光玉). Nascido em 1888 em Yantai, pertencia a uma família pobre, e ganhava a vida como sapateiro. Em 1906 ele se torna discípulo de Fan Xudong. Em 1913 seu mestre é convidado a ensinar na recém criada escola Jing Wu (精武) de Shanghai, mas como Fan Xudong já possuía mais de 80 anos, ele envia Luo Guangyu em seu lugar. Dentro da Jing Wu, o estilo incorporou algumas formas e características de outras artes, e por causa de um problema no joelho, Luo Guangyu passou a ensina-lo com bases mais altas – outras fontes dizem que ele possuía uma perna maior que a outra, e precisou fazer ajustes para se adaptar, além do mais ele não era tão grande e forte quanto seu professor. Apesar disso, se torna um lutador famoso e um dos mais respeitados mestres do local, e seus alunos obtém muito sucesso em competições. Em 1930 ele se muda para Hong Kong para lecionar o estilo na Jing Wu da cidade, onde ganha sua maior fama. De acordo com seu aluno Huang Qinyun, Luo era um professor exigente mas caloroso e amigável. Ele foi o grande responsável por propagar o estilo, tornando o Louva-a-Deus um dos estilos mais populares do mundo, e a linhagem 7 Estrelas a mais popular. Ele possuiu dezenas de alunos, tanto no norte quanto no sul do país. Faleceu em 1944 quando retornava para sua cidade devido uma doença.

 
Entre os alunos do sul devemos destacar Huang Hanxun (黃漢勳), conhecido como Wong Hon Fun em cantonês. Nascido na província de Guangdong (Cantão), em 1932 começa a estudar com Luo Guangyu na Jing Wu de Hong Kong. Em torno dos 20 anos de idade já dava aula, e destacou-se entre seus colegas, sendo um dos melhores lutadores e maiores divulgadores do estilo. Deu aulas em Macau, na China continental, em Hong Kong, substituindo seu mestre e em sua própria casa. Um fato curioso é que ele nunca aprendeu todas as formas de seu professor, talvez por estar sempre ocupado ensinando, e de qualquer forma isso não o desqualificava, já que tinha um excelente domínio do sistema, e a seu professor acreditava que a maestria do estilo vinha da habilidade de combate e execução correta das formas. Publicou cerca de 40 livros a respeito do Louva-a-Deus, mas em nenhum usava o nome “7 Estrelas”, apenas “Louva-a-Deus do Norte” (北螳螂拳). Em Hong Kong, devido sua popularidade e habilidades ficou conhecido como “o Rei do Louva-a-Deus”. Tinha um temperamento severo, mas mesmo assim ensinou mais de 4.000 alunos. Em 1972 ele se aposenta oficialmente e falece em 1973.

 
Por volta de 1949 e 1960, o grão-mestre Chan Kwok Wai aprende esse estilo com Huang Hanxun em sua casa. Também obtém oportunidade de treinar com Luo Guangyu, seu shigong, com quem aprende algumas formas que seu professor não sabia.

A respeito do estilo

O estilo Louva-a-Deus 7 Estrelas é um estilo incomum se comparado a outros como Liuhequan e Shaolin. Suas bases são mais altas, seu movimento é predominantemente linear, seu foco é em ataques curtos com os braços, possui poucos chutes, a maioria baixos, embora possua uma maior diversidade nas formas vindas do estilo Punho Longo. É muito agressivo, focando em prender o oponente na curta distância e derrota-lo com golpes rápidos e curtos. Faz um extenso uso também de joelhos e cotovelos, que geralmente ficam em segundo plano nos demais estilos. Sua aparência externa é rígida e compacta, com a postura erguida e golpes muito rápidos e duros, mas internamente possui maior leveza. Fazendo jus ao nome, usa extensivamente o passo 7 Estrelas, que permite atacar e prender oponentes pela perna, para desequilibra-los e permitir que os braços fiquem livre para agir. Sua força vem da harmonia e correto uso das “7 estrelas” do corpo.

 
O estilo é totalmente voltado para o combate. Suas formas são pouco estéticas e seus golpes são fáceis de aprender, executar e aplicar. Geralmente seus ataques são simultâneos a defesa e pensados para revidar imediatamente um golpe. Também usa técnicas de torções e chaves (qinna) e quedas (shuai).

As diversas linhagens

O estilo Louva-a-Deus ganhou imensa popularidade, tornando-se um dos mais difundidos no mundo inteiro. Por causa disso, ganhou dezenas de ramos e linhagens diferentes. Algumas delas são:

  • Louva-a-Deus 7 Estrelas (七星螳螂拳): A mais popular de todas, especialmente fora da China e no sul do país;
  • Louva-a-Deus Flor de Ameixa (梅花螳螂拳): A segunda mais popular, famosa em Shandong e região, e também no exterior. Surgiu da combinação do estilo Flor de Ameixa (梅花拳) com uma linhagem antiga de Louva-a-Deus. É mais leve que o 7 Estrelas, possuindo movimentação mais ativa, alternando alto e baixo, e passos maiores.
  • Louva-a-Deus 6 Harmonias (六合螳螂拳): O terceiro ramo mais popular do estilo. Considerado o mais suave e distinto entre as linhas de louva-a-deus. Foi desenvolvido através da união de uma linhagem antiga de Louva-a-Deus com um estilo chamado Liuhequan (六合拳 – 6 Harmonias). Não se sabe se é o mesmo estilo Liuhequan, semelhante ao Shaolin, já que esta linhagem não apresenta nenhuma das características do estilo. Este estilo usa movimentos mais lentos e suaves, como o Taijiquan, e apresenta características de estilos como Xingyiquan, Pigua, Tongbei. Seus passos são complexos, desenvolve força a partir da espinha num movimento como um chicote, sendo manifestada nas mãos. Possui apenas 7 formas, todas exclusivas, e faz pouco uso do gancho das mãos, muito presente em outros estilos. É muito popular no norte da China e em Taiwan. 
  • Louva-a-Deus Taiji (太極螳螂拳): O nome Taiji vem da teoria da alternância e equilíbrio entre o Yin e Yang. É mais leve que o Flor de Ameixa e 7 Estrelas, fazendo maior uso da força interna e movimentos mais redondos. Esta linhagem ficou famosa em Hong Kong através do mestre Chiu Chuk Kai que introduziu o estilo no sul.
  • Louva-a-Deus Taiji Flor de Ameixa (太極梅花螳螂拳): Desenvolvido pela família Hao de Yantai a partir do estilo Flor de Ameixa. 
  • Louva-a-Deus Tábua Branca (光板螳螂拳): Uma linhagem muito rara. Semelhante ao Flor de Ameixa.
  • Louva-a-Deus Punho Longo (長拳螳螂拳): Ensinado em Taiwan, foi desenvolvido com grande influência do Punho Longo, semelhante ao Shaolin. 
  • Louva-a-Deus Porta Secreta (秘門螳螂拳): Ensinado em Taiwan, é uma variante do Louva-a-Deus Taiji.
  • Louva-a-Deus 8 Passos (八步螳螂拳): Famoso em Taiwan, foi desenvolvido a partir do Louva-a-Deus Flor de Ameixa, através do estudo da movimentação de outros estilos como Bagua e Tongbei. No final, o estilo ficou com uma movimentação baseada em 8 passos longos e 8 passos curtos, da onde vem seu nome.
  • Louva-a-Deus Wah Lum (華林螳螂拳): Resultado da combinação entre o Louva-a-Deus 7 Estrelas e o estilo Tantui, desenvolvido no templo Wah Lum em Shandong e depois levado para Cantão. Possui bases muito baixas e várias técnicas de chutes.

As formas do Louva-a-Deus 7 Estrelas

Na linhagem 7 Estrelas as formas geralmente são curtas, mas em compensação são várias, chegando a haver até 40 formas de mão em algumas escolas. O currículo passado por Luo Guangyu, na realidade, foi formado majoritariamente por formas do 7 Estrelas, e também por algumas formas do Flor de Ameixa e do Tábua Branca, além das formas já citadas do estilo Yanqing e outras de um estilo chamado Fanche (翻車 – Virar Carroça/Moinho), além de uma série de katis chamada Símio Branco (白猿), algumas vezes atribuída à Wang Yunsheng, outras a um empréstimo vindo de um estilo de macaco. Não é claro quem adicionou as formas de Flor de Ameixa e Tábua Branca, embora provavelmente tenha sido Luo Guangyu por intermédio de mestres que conheceu na Jing Wu.
O Fanche é um ponto controverso, já que ele aparece em várias linhagens de Louva-a-Deus e é considerado um kati básico, mas as vezes ele é citado como um estilo absorvido pelo Louva-a-Deus (se for verdade ele é uma adição antiga ao estilo), outra como katis desenvolvido dentro do Louva-a-Deus como técnicas de longo alcance. Tem uma aparência bem distinta de outras formas do estilo, fazendo uso de movimentos redondos e grandes, como se os braços girassem uma grande roda, daí seu nome.

 
Mais tarde, por causa de sua associação com a Jing Wu, a linhagem de Luo Guangyu incorporou diversas formas dessa escola, como as famosas 10 formas básicas da Jing Wu, que deveriam ser estudadas por um aluno antes de aprender qualquer estilo. Também, graças à Jing Wu o estilo absorveu muitas armas de outros sistemas, já que suas linhagens mais antigas possuíam poucas armas originais do Louva-a-Deus. Algumas de suas armas mais tradicionais são o Bastão 6 Harmonias (六合棍) e a Espada 8 Imortais (八仙劍).

 
Temos que lembrar entretanto que todas essas formas foram, mais tarde, absorvidas no estilo e “7 estrelizadas” – ou seja, passaram a ser executadas com os maneirismos e conceitos do 7 Estrelas.
Algumas das formas do antigas do 7 Estrelas são: 18 Anciões, Passo Esmagador, Mão Flor de Ameixa, Cortar Obstáculo, etc. Do Flor de Ameixa são: Punho Flor de Ameixa, Essencial nº1, etc. Do Tábua Branca são: Flor de Ameixa Caindo, Pequena Estrutura, Grande Estrutura, etc. Do Fanche são: Pequeno Fanche e Grande Fanche. Do Punho Longo são: Pequeno Tigre-Andorinha, Interceptar o Tigre Negro, Atacar Correndo em 4 Direções, etc. O estilo também conta com combinados e formas bêbadas.

 
*Nota: os 12 princípios podem variar de acordo com linhagem ou estilo, e carecem de explicações mais detalhadas além da sua tradução literal.

 


Autor: Murilo Caruy Póvoa

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